segunda-feira, abril 17, 2006

Das duas cidades que conformam Ferrol

Nom gosto de que me mintam. Som consciente do necessário lugar que ocupa a mentira no comportamento humano. No mundo infantil, a mentira é considerada um indicador de inteligência das crianças para sobreviver às regras do mundo adulto. Mas as crianças nom toleram bem a mentira adulta, polo de desorientaçom que representa, por inesperada e pola confusom e frustraçom que leva aparelhadas. Pois bem eu tampouco a levo bem, mas ao medrar numha família muito numerosa onde cada quem guarda no seu subconsciente lembranças diferentes que podem dar lugar a múltiplas versions do mesmo feito, aprendim a conhecer a verdade como algo relativo e valorar mais nas pessoas os seus feitos, afectos e atitudes, que o que contam, ainda que incluam pequenas coleiçons de mentiras mesclando imaginaçom, desejo e realidade.

A mentira de quem impom as regras, as normas, ou se encarga de mante-las, deveria ativar no organismo coletivo umha reacçom de incompatibilidade que frustrara automaticamente qualquer intento de manipulaçom. Mas nom ocorre assim, como se este organismo colectivo que conformamos as pessoas nas suas formas mais variadas (comunidades familiares, classes, povos, gêneros, minorias...), nom apresentara capacidade genética para fazê-lo, e fosse só trás um longo processo de criaçom de anticorpos que puidera frear a imunodeficiência que nos caracteriza. Os movimentos Nunca Mais ou o efeito derivado da informaçom do governo Aznar sobre os atentados do 11-M, som dous exemplos que me cadram nesta teoria.

Esta reviravolta introdutória quere levar-vos a umha mentira que a Cámara de Comércio de Ferrol elaborou há uns dias, e que o jornal La Voz de Galicia elevou a nova de primeira plana na sua ediçom comarcal. A Cámara de Comércio assegura que a celebraçom da Semana Santa ferrolana trai à cidade 50 vezes mais de benefício que o que se inverte ne-la. As contas da Cámara de Comércio som simples. Para fazê-las utiliza umha folha de cálculo onde aparecem dumha parte os ingressos, é dizer, os subsídos que venhem das arcas do próprio concelho, a Deputaçom ou a Xunta, e por outra parte os supostos ingressos nos negócios de hostelaria da cidade que podam aportar os miles de visitantes que acudem nestas datas a Ferrol.

Esta é umha dessas mentiras que resulta de valorar um feito polo que parece obvio, sem reflexom sobre efeitos e consequências que conleva, ou sem capacidade de reflexom que associe idéias e busque mais além do que se vê.

Para luitar contra umha mentira, nom cumpre mais que desmonta-la em cada um dos argumentos nos que se construa. Existe primeiramente umha crença que assegura que a gente acode a Ferrol a ver as manifestaçons religiosas. Mentres nom se realize um estudo sociológico que o confirme, eu também podo assegurar que o que impulsa à gente a vir à nossa cidade é mais bem o mesmo impulso que move a outra a visitar a Feira do Encaixe de Camarinhas, ou os múltiplas balneários que salpicam a nossa geografia e prometem uns dias de relaxaçom, cámbio ou simples curiosidade, entendida como ganhas de conhecer.

Tampouco é de esquecer que Ferrol é hoje por hoje umha cidade de emigraçom, com um fluxo constante de perda de habitantes. Esses mesmos habitantes que retornam em datas moi sinaladas, Nadal e verám incluidos, e como nom, nesta semana onde muitas pessoas desfrutam dumhas pequenas ferias que lhes permitem viajar com um pouco de tempo. Nestas datas sentimos as ruas mais cheias, e os negócios sintem um pequeno impulso que ainda assim, nom evita a constante pingueira de feches que entre carteis de “aluga-se ou vende-se” esta-lhe dando um ar fantasmagórico ao nosso casco urbano.

Teríamos as mesmas visitas? Regressariam a Ferrol as pessoas nadas na cidade e agora fora por razons laborais? Acudiriam a outras ofertas de ócio caso de que as expressons católicas que percorrem as nossas ruas nom tiveram o apoio dos cartos públicos, e se limitassem a umha expressom expontánea de religiosidade e nom a uns actos assumidos como beneficiosos por interesse turístico? Ou o que é mais importante, realmente som mais os benefícios ou os perjuiços que arrodeam à celebraçom da Semana Santa ferrolana?

Polo que eu tenho valorado, a Semana Santa ferrolana tem uns custes engadidos que fam pensar em grandes perdas para a populaçom em geral. É umha actividade que, tal e como está concebida, repercute negativamente na sociedade, com elevadíssimos custes económicos. A minha folha de cálculo tem muitas mais entradas que a da Cámara de Comércio.

Quando umha estrutura religiosas está permanentemente vinculada ao poder numha sociedade, como é o caso da nossa, pensemos na figura do Arcebispo Gelmirez, a Inquisiçom ou a simbiose entre a Igreja católica e o franquismo, é muito difícil observar como irregulares certos comportamentos dumha sociedade democrática, que para sê-lo, deve ser também laica. De aí as irregularidades que se apresentam se pensamos que dos orçamentos do estado, a Igreja Católica percebe do estado, instituiçons autonómicas e municipais, uns 3.004.988.280€, é dizer, mais de três mil milhons de euros, e dessa cifra só um 15% se recaudam através do 0,54% voluntário que as pessoas declarantes a Fazenda podem doar, sem que o Estado cobre à Igreja Católica polos serviços de recaudaçom gratuita dessas doaçons. Esse dinheiro é aportado por toda a cidadania, independentemente de que esteja de acordo coas doutrinas e políticas morais do catolicismo dominante.

Os salários de sacerdotes, os colégios religiosos concertados, as infraestruturas (igrejas, colégios, rectorais...), que se utilizam como base para organizar e alimentar este tipo de manifestaçons religiosas, correm como gasto a conta dos cartos de toda a cidadania. Mais ainda, utilizam-se as Forças Armadas e os Corpos de Seguridade do estado para dar-lhe aos desfiles um carácter de oficialidade e pensamento único possível que visibiliza a ligaçom entre o poder religioso e o político.

Poderiamos pensar que esta vinculaçom Igreja-Estado, renovada polos Acordos coa Santa Sede em 1979, podia partir da idéia de que a cultura, a sanidade, a educaçom, som um direito, nom um negócio, e polo tanto o direito à desenvolver a própria espiritualidade ou a colectiva, também deve estar garantida polo Estado, mas o que defendem esses acordos é a perpetuaçom duns privilégios por umha instituiçom que está exenta de impostos e tem mais propriedades em bens imobiliários que o próprio estado.

E ainda há mais, porque nom é já o que nos custa a toda a cidadania manter umha Igreja coa que nom coincidimos nos seus critérios morais a maioria da populaçom, basta ver as estatísticas favoráveis ao divórcio, aos direitos de homossexuais e lesbianas, aborto, uso de preservativo...senom os enormes custes em quanto a saúde mental e sexual que a influência do catolicismo oficial acarrea à nossa sociedade. A última declaraçom do Bispo de Ourense fronte ao matrimónio celebrado entre um concelheiro do Partido Popular e o seu moço, agora já esposo; ou a do portavoz da Conferência Episcopal, condenando a masturbaçom, as relaçons sexuais fora do matrimónio, a homosexualidade, o aborto e a eutanásia, levantam todas as fantasmas dum modelo social gris e repressor, onde as pessoas nom podem ser felizes. Um modelo social que coincide com o defendido no seu momento polo Consejo Local del Movimiento, ao que pertencérom na sua última época na nossa cidade, algumhas das pessoas vinculadas à organizaçom das Confradias da Semana Santa ferrolana. De aí o gosto polo sofrimento, a morte associada à tortura, o lujo dos materiais, a hierarquia militarizada, e as vestimentas herdadas da tradiçom inquisitorial. Essa é a simbologia na que se expressa a espiritualidade nas ruas ferrolanas.

Há uns dias coincidim num acto celebrado no Ateneo Ferrolám, baixo o título “Feminismo enfermo de satisfaçom”, com um home que detentara um cargo de responsabilidade na Camara de Comércio durante muito tempo e agora já está jubilado. Aproveitou a sua intervençom desde o público para argumentar em contra da incorporaçom das mulheres ao mundo laboral e culpabilizar aos novos modelos de família da violência de gênero. A sua idade nom justificava a sua postura claramente sexista e discriminatória, mas o situava anclado no modelo social e político que o encumbrara e lhe dera o controlo do que agora parecia se lhe escapava das mans. Mas que é o que justifica agora a valoraçom da Cámara de Comércio e o efeito lupa aplicado por La Voz de Galicia ?

As novas geraçons que tanto desde as instituiçons como desde as estruturas económicas deveriam dar um impulso à nossa cidade, carecem de projecto, de idéias, de criatividade, de visom de futuro, e seguem construindo em falso umha cidade que se vem abaixo. Umha cidade escrava das elites que a dominárom e a governárom desde que decidírom fusilar ao alcalde que representava umha modernizaçom baseada numha sociedade laica. Junto a Quintanilha, todas as cidadans e cidadaos que sonhavam e construíam esse futuro. E como símbolo do círculo que ciclicamente se repite, pechando esperanças defraudadas, esforços de cámbios nom logrados, de defesas coletivas inconclusas, no 72 ou nas sucessivas reconversons do nosso monocultivo industrial, os baches nas estradas ferrolanas abrem-se umha e outra vez para lembrar-nos que estamos fazendo-o mal, construindo umha cidade sobre gándaras, intentando permanentemente soterrar os seus rios e as suas fontes; fechando em falso feridas, que como a da Ria supuram com cada marea baixa um cheiro pestilente resultado da batalha entre as duas cidades que conformam Ferrol, a cidade dos vencidos e vencidas, mortalmente ferida pola sangria da polpulaçom mais jovem; e a cidade dos vencedores e vencedoras, totalmente estériles e agonizantes num modelo social e económico esgotado e mórbido para todos os seres que respiramos por estes lugares.
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segunda-feira, abril 10, 2006

O desejo...

Aguardo que encontres do teu interesse este blogue, que che seja útil, como encontro eu útil, e me confortam, as ideias e pensamentos, sugerências e reflexons que compartilham comigo todas as pessoas que creem na construcçom do colectivo.
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quarta-feira, julho 27, 2005

Por favor, parade isto!


Escrito postado no nodo galego da rede Indymedia em Julho de 2005, em relaçom dumha acçom contra um caixeiro automático em Compostela e a detençom de duas pessoas vinculadas a organizaçons independentistas. Posteriormente esta postagem foi reproduzida por outras pessoas no Foro Vieiros e noutros blogues suscitando diferentes reacçons.

POR FAVOR PARADE ISTO!!!


Eu também concordo com o que se di no escrito que inicia estes comentários mas quero faze-lo, segundo o meu critério, desde umha postura mais crítica que a que vejo reflectida aqui. Quero falar das conseqüencias que tenhem este tipo de actividades políticas violentas, nom só para as pessoas que as executam (cárcere, morte, lesións, enfermidades mentais,marginaçom social...), senom, e mais importante para mim, quem som as vítimas reais destas acçons armadas e que frutos se recolhem delas. Tudo isto, quero aclarar, som ensinanzas que eu saco da experiencia de ter vivido moi de perto um proceso de loita armada neste país ainda muito recente. Daquela experiencia saem estas reflexons, que aguardo podam ser de utilidade para evitar sofrimentos inútiles e feridas que som muito dificis de curar quando nom impossiveis de cicatrizarar. Confio que nom se califique este escrito com os clichés cos que se manexam estes temas quando falam as bombas e as pistolas.

“Quem anda com coitelos acava cortando-se” di ao meu entender moi sabiamente o dito popular. Na Nova Poesia Galega, onde se recolhia o ideario do EGPGC, falava-se de que nom se ia atentar contra vidas humanas. A prática armada demostrou que ainda que a vontade seja moi clara, a violência mata, e sobre a conciência das pessoas que nos tocou viver esse processo dum jeito ou outro, estám as quatro vidas perdidas: na organizaçom armada, Lola e Jose; a do guardia civil de Irijoa e a da moça de Vigo que estava na discoteca Clangor. Quem pujo a bomba no caixeiro de Compostela pensou na possibilidade de ter quitado a vida ou ocasionado feridas a pessoas que passaram por ali nesse momento? Estám dispostas essas pessoas a que a vida doutras passe como umha pelota de mao em mao dependendo de avisos telefónicos e da vontade das forças do estado para actuar dum jeito ou outro? Som danos colaterais? Sim? Entom somos o mesmo que os imperialistas, mas ao nosso nível, à nossa escala, porque se tivessemos o seu poder, as suas armas, os seus números, reproduciriamos os mesmos esquemas de sociedades autoritárias, violentas e agressivas, é dizer, imperialistas, onde a ideia de que o fim justifica os meios, serve de colchom amortiguador de todo tipo de violaçons de direitos humanos e de submetimento da sociedade.

Também quero sulinhar o tipo de relaçons humanas que muitas vezes producem estas práticas políticas violentas, ao menos esta é a minha experiencia. A desconfianza entre companheiros e companheiras, as acusaçons e a mania perseguitoria instala-se nas relaçons e na vida cotia. A vinganza e o castigo asumen-se como metodologia. Nom quero dizer com isto que nom sejam práticas que estejam instaladas também nos movimentos socais ou na vida privada, porque fam parte da ideologia dominante e som parte inseparável da existencia dos modelos de estado que conhecemos, mas, como acontece nesse caso, ao estar a violência legitimada, as consequencias sobre as pessoas som terríveis, pensemos em consignas como “castigo aos colaboracionistas” e “um estado forte, temido polos nossos inimigos”. Neste caso, a pena de morte é ao estado de Texas, como estas actitudes e práticas som ás pessoas que nos erigimos num momento dado em elites pretendidamente revolucionárias.

É certo que a violência tem a sua raiz e o seu alimento nas desigualdades, mas nom é menos certo que a violência cria também desigualdades. As bombas som altofalantes de muita poténcia, fam escuitar a sua voz independentemente da importáncia real ou numérica de quem as pom, do seu peso social. Som linguagens de poder, nom dum poder popular, compartido e construido desde maiorias sociais conseguidas na participaçom e inclussom de minorias e maiorias diversas em proxectos comuns, senom o poder da violência justificada por ideologia e legitimándose na injustiça e opressom que produz o poder dominante.

Pôr o destino dum povo, um proxecto político, nas maos dumhas poucas pessoas que convivem coa ideia de morrer, que decidem sobre a vida ou a morte de outras, é contradictório com a construcçom dum pais livre e umha sociedade feliz, que aposta pola vida e o desenvolvemento humano e do medio natural. Temos experiencias recentes e conhecimento de quanto tenhem que passar outras sociedades que vivem ou vivirom situaçons de guerra ou processos políticos armados, para conseguir procesos de negociaçom e avanço político. E estou a falar de sociedades onde a práctica armada contava ou conta com um respaldo social amplo!!! No caso da Galiza, esse respaldo, nem existiu nem existe. Pretende-se criar polo método da coacçom e o medo? Nom é certo que exista um só caminho para conseguir objectivos políticos por muito legitimos que estes sejam. E se só existira o da violência, haveria que inventa-los. Tem Catalunya menos conciência nacional por carecer de organizaçons que practiquem a violência política? É umha sociedade menos articulada em quanto a redes e organizaçons sociais? É Quebec umha sociedade menos desenvolvida em quanto a procesos de autodeterminaçom? Em que espelhos nos olhamos?

Preocupa-me a situaçom das pessoas detidas, mas tenho que dizer que estou aliviada por nom ter que estar sofrendo pola morte ou feridas das pessoas que puiderom ser vítimas da bomba posta no caixeiro.Também que as pesoas e as organizaçons temos que assumir a responsabilidade que emana das nossas acçons ao longo das nossas vidas. E quem nom tem responsabilidade? Por que teria que sentir-se afectada? Porque tudo isto afecta-nos, nom só como pessoas que empatizamos com o sofrimento humano, senom que nos afecta directamente porque está feito no nome da libertaçom do nosso país, da nossa dignidade como povo.

Por favor, parade isto!


Temos neste país umha quota já demasiado elevada de mortes e sofrimento sem necessidade de criar mais: acidentes e enfermidades laborais; acidentes de tránsito; violência de género... por certo a última vítima, umha nena de dous anos no concelho de Narom que tivo umha morte terrível! De verdade alguém pensa que tudo isto amanha-se a bombazos? É tam despreciável o movemento político e social do nosso país, (sindicatos, partidos e organizaçons políticas, movimento ecologista, redes feministas, movimentos pola soberania alimentária e o comércio justo, de educaçom para a paz, medios de comunicaçom alternativos, movimentos de acçom cultural, movimentos de defessa da lingua, espaços alternativos, de defessa dos direitos das pessoas presas, polos direitos civís, as liberdades sexuais, da saúde, das pessoas imigrantes...), dá tam pouca confianza que nom pague a pena gastar as nossas vidas, o nosso dinheiro, as nossas ideias em alimenta-los, desenvolve-los, melhora-los para construir um futuro melhor para este povo? Agardo que a minha experiência e a de muita outra gente valga para algo e que este escrito nom seja utilizado por quem nom quere solucionar os problemas senom potencialos em contra do nosso país.

Lupe Ces,
27-07-2005

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