quinta-feira, maio 06, 2010

Loitar em tempos revoltos

Umha situaçom de confusom geralizada semelha estar consolidando-se nos últimos meses na nossa sociedade. Pouco a pouco o medo e a incerteza sobre todo relacionados coa situaçom laboral, vam atacando a resistência que freava o pessimismo, e vai-se assentando a depressom colectiva e a desconfiança. Unha depressom que hai umhas décadas viveramos já na comarca de Ferrol Terra, depois de que a loita contra a reconversom dos estaleiros, acabara em derrota psico-social. Umha depressom colectiva que nom curou, só se paliou cumha perda de populaçom que converteu à comarca e nomeadamente à cidade de Ferrol, num lugar envelhecido e mesmo condenado ao esgotamento político e social. E assim medrou também a gente nova de Ferrol nestes anos, escoitando e reconhecendo-se numha melodia que dizia que este era um sitio de derrotas, mas que havia que ficar aqui. Desobedecendo o mandato, muitos e muitas acabárom marchando.

Os fenómenos meteorológicos e geológicos, estám ajudando a aprofundar na impressom de que imos cara a um abismo. A informaçom sobre fenómenos naturais, ocupa agora um espaço importante dos informativos, como tem que ser. Mas sempre sem analisar, que parte hai de natural, e que parte poderia ter-se evitado, das desgraças que acompanham estes fenómenos, como em Haiti, Madeira, Chile, Turquia. China, Islándia... A nós já nos tocou algo. Nos últimos tempos, vivemos o dramatismo do Klaus, e paralisou-nos o medo ao Xhintia. Com o Klaus sentimos a incomprensom de quem a poucos quilómetros nom sofriam as suas consequências. Com o Xhintia a incomprensom puxemo-la nós, mas que aprendemos?

A vida chama todos os días à porta e hai que ir trabalhar, ou buscar emprego, estudar, atender as necessidades diárias, estar pendente das pessoas queridas e mesmo acudir a umha que outra actividade social. Mas a vida nom está a fluir com normalidade. A nossa respiraçom colectiva é cortada e agitada. Nom sabemos cara onde vai o mundo, e como nom sucedia desde havia muito tempo, agora nom sabemos o que vai ser de nós a um ou dous anos vista. Case todo o mundo sinte que antes ou depois, a terra que pisa vai começar a se mover, também no senso literal. As vozes da direita aproveitam a incerteza para lembrar-nos o bem que vive o povo sem vontade, sem ter que pensar e decidir, o bem que se vive se te tutelam. Assim declaram as bonanças do passado. Todo, dim, deveria volver ao de antes, ao branco e gris da época onde se marcava até a rúa pola que deverías andar moceando, e o longo da saia, definia a altura moral da mulher que a portava. Nom havia nada que aguardar, nada que pensar, nem um sobressalto ía romper a triste monotonia dos cantos litúrgicos ou da tabla de multiplicar. Cada quem sabia o seu lugar e o que tinha que fazer.

As vozes da esquerda pola sua parte, estám enfeitizadas polos cantos das sereias. O discurso de que a culpa de que nom saiamos da crise é dos sindicatos, porque nom dam entrado na reforma laboral que se precisa, ganha adessons. Puidemos escoitar na Cadena Ser o sábado 1º de Maio, como se defendia a congelaçom dos salários do funcionariado entre os contertulios e ninguém punha o contraponto. O mesmo passou quando se falou da jubilaçom aos 67 ou doutras medidas de recorte de direitos laborais. Umha e outra vez repetiam que os sindicatos tinham a culpa, porque nom sabiam explicar-lhe bem aos trabalhado@s todas estas medidas modernizadoras e preventivas para que o sistema nom creve.

Alguns sindicatos estám na negociaçom dumha reforma laboral. Acudem a essa negociaçom numha posiçpm de debilidade. Nas poucas declaraçons públicas que permitem escuitar os monopólios da informaçom, transmitem o síndrome da vítima de maltrato “vou calar para que nom se enfureça”, assim levam as negociaçons, sem luz nem taquígrafos, dando vantagem aos especuladores, que pretendem sacar o máximo beneficio desta crise.

É verdade, os sindicatos nom estám explicando bem as cousas. Nos discursos deste 1º de Maio, nom se explicou o que está a passar em Grécia, ou as consequências negativas dos informes das agencias de rating, como Standard & Poor's. Por certo, interei-me ainda estes días que só hai tres no mundo, duas norte-americanas e umha inglesa, mas que tenhem o poder de baixar ou elevar, segundo os seus informes, os juros da débida pública dos estados. Os sindicatos nom mobilizarom para que se acabe com esse oligopólio e se criem agencias públicas, como também deveria criar-se banca pública, e emprego público. E mentres nom chegamos a estes objectivos, os sindicatos deveriam marcar no dia a dia da classe trabalhadora que realidade alternativa podemos construir desde já. Tendo em conta a frase que iluminou o reagir do Feminismo na década dos setenta “O Privado é Político”, os sindicatos, como movimento social transformador, deveriam dar alternativas para o cotidiano, por exemplo, que fazer coas hipotecas ou os alugueres, onde meter os aforros, como mercar para debilitar o poder das multinacionais, que cultura consumir para fortalecer a ideologia de classe e cargar-nos de argumentos fronte ao capitalismo que ameaça com deglutir-nos a nós e ao planeta, que como bem ensinam em Bolivia, todo é a mesma cousa.

Mas, a gente que conformamos os sindicatos, que estamos nos centros de trabalho, que ponhemos dirigentes ou os sacamos, ou todo o contrário, estamos em disposiçom transformadora ou simplesmente aprendimos um discurso e apoiamos um modelo social, que nos permite seguir agarrando umha parte do pastel mentres milhos tenhem só as faragulhas? Em Grécia, a unidade sindical convoca a folga geral. Só estamos em disposiçom de aparcar o que nos separa quando vemos o tsunami arrasando-nos? Nom podemos tecer redes de uniom que nos amparem antes?

Mentres, os donos da tarta, querem aproveitar-se de que imos subindo a escaleira coa luz apagada, às apalpadas. A confusom das palavras nos discursos que explicam a crise económica, que falam dos problemas sociais, que alarmam sobre os cámbios no clima, som como guedelhos que se liam nos nossos pés e convertem em mais torpes aqueles passos que imos dando para superar cada escano. Imos virando às costas a quem nos representou no seu día e hoje, nos traspasa co seu discurso, sem provocar em nós nem umha pequena emoçom. Tampouco somos quem de pôr nomes e apelidos a quem montou este barulho. Deveríamos pechar-lhes as nossas casas, os nossos coraçons e as nossas vidas. Rechaçar o seu mercado, os seus empréstimos, o cacho de paraíso que nos querem vender. Fazê-los avergonhar nos seus despachos, nos seus clubes privados, nas portas dos seus templos. Queremos e devemos conhecer e sinalar aos seus representantes nos assentos dos seus escanos, nas redacçons dos seus diários ou nos tribunais onde ditam sentência.

Som os usurpadores de direitos. Som os sanguesugas do trabalho alheo. Som os ludópatas do casino-planeta. Intentarám apertar para que trabalhemos mais, descansemos menos, para que morramos antes, para que nom haja ninguém que nos coide quando o precisemos, para que sobrevivamos entre o lixo que vam produzindo e estrando. E sobre todo, faram o impossível para que nom saibamos, que nom comprendamos o que estám a fazer, e nom saibamos que hai outro jeito de viver sem eles. Por que Grécia tem que vender as súas ilhas? Quem pode mercalas? Para que? Por que se limita o salário mínimo, as penssons, a idade de jubilaçom, o tempo de subsídio e nom se limita a riqueza? Nom é esta umha pergunta sinxela? Pois logo, terá doada resposta.

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terça-feira, abril 27, 2010

A guerra dos corpos

Artigo publicado na revista "Atenea" do mes de Março, editada polo Ateneo Ferrolán.
Escoitamos falar da guerra que se livra polo controlo dos recursos energéticos, a mais descarnadamente directa, que bombardeia, assassina, destrue países inteiros. Escoitamos também a diário, falar da guerra contra o terrorismo, que é a bandeira que se ondeia como escusa para desatar essas guerras de destrucçom. Mas também sabemos da que se livra polo controlo do espaço. Os satélites amoream-se porque também formam parte da guerra polo controlo da informaçom. A guerra tecnológica tem na espionagem e sabotagens, as suas melhores armas, fronte aos primeiros brotes de tecnologia conseguida baixo sistemas de criaçom livre e colectiva. Mas a guerra que se livra no corpo das mulheres, só se visibiliza nalgumha das suas expressons, e nom se analisa como um todo global que persegue, o mesmo que no caso da energia, e os recursos naturais, o controlo da potencialidade do corpo e a mente das mulheres, e o poder simbólico que ao longo dos tempos jogou para manter os poderes religiosos, políticos ou de supremacia dumhas culturas sobre outras.

A guerra nos corpos das mulheres tem umha das batalhas mais virulentas no controlo da sua capacidade reprodutora. O aborto voluntário é o cabalo de batalha dos poderes religiosos das distintas confessons, e tem no conservadorismo político o seu maior aliado. Vai associado a outros objectivos como som a capacidade de controlo por parte das mulheres da maternidade, e a potencialidade sexual e em geral, de autodeterminaçom das mulheres, extendida a todos os aspectos e momentos da sua vida. Atinge a todas as mulheres e todas som vítimas ou de criminalizaçom e repúdio social, ou de condenar-se de por vida a umha existência ajustada a normas morais que sacralizam a desigualdade, a dor e a abnegaçom de obrigado cumprimento, nom de livre eleiçom.

Esta batalha, que tivo umha primeira parte, exitosa para as mulheres em quanto abriu novos espaços de direito, na década dos setenta do século passado, revive agora em todo o planeta, também na Europa do século XXI. As mulheres que temos abortado voluntariamente, somos acusadas de assassinato desde os púlpitos, e desde os médios de comunicaçom que, faltando ao código deontológico mais básico, fam de altifalantes da Conferencia Episcopal sem, salvo contadas excepçons, colocar quando menos, ao mesmo nível a argumentaçom e a presença das defensoras dum direito fundamental como é a soberania do próprio corpo. E todo isso sem que essas acusaçons diárias de assassinato, tenham nengumha conseqüência. Só umha conjuntura política que mantém em certas estruturas do poder político a feministas, novas e velhas, falo da Ministra de Igualdade, mas também das suas assessoras, fam possível que se avance nos direitos das mulheres e das moças. Umha conjuntura que pode virar em qualquer momento.


Ainda desde sectores progressistas, como se dumha purgaçom de culpa se trata-se, dramatiza-se o aborto, falando dumha decissom difícil, de um trago amargo ao que as mulheres se tenhem que agarrar como última opçom, quando um aborto, nas primeiras semanas de gestaçom, que é no que se realizam a imensa maioria, poderia ser umha intervençom de ambulatório, sem mais trascendência. O que é um trago amargo é passar por abortos clandestinos onde as mulheres que nom perdem a vida, podem ficar com lessons para sempre. É um direito traer umha criança desejada a este mundo, e também é um direito vir a este mundo como um ser desejado, porque alguém quere dar-che a vida e comprometer-se contigo para sempre.


A ofensiva nom é exclusiva da hierarquia católica espanhola, nem sequer da hierarquia católica assentada no Estado do Vaticano. O integrismo religioso, evangelista, islámico, budista, judeu, batalha polo poder no útero das mulheres. Somos expulsadas do nosso próprio corpo, para viver para sempre baixo um poder alheo. Em EEUU mesmo se assassina a médicos que praticam abortos. Em Polónia, onde o aborto é ilegal e só se permite nuns supostos moi restritivos, umha campanha associa nestes dias, nas vaias publicitárias, o aborto com Hitler, pretendendo concienciar à povoaçom da necessidade da ilegalizaçom total. Em Nicarágua, depois de ter conseguido a lei mais avançada em América latina, no século passado, baixo o governo Sandinista, fortemente tutelado pola hierarquia católica, aprovou-se a proibiçom total. E assim em todo o planeta, alzan-se vozes em defessa dum “código genético que pode chegar a ser pessoa”, presente já no momento da fecundaçom do óvulo, mentres a Injustiça e a Desigualdade, seguem devorando seres vivos, arrincando do colo das suas nais a seres indefensos ante a guerra, a fame e a pobreza.


Outra fronte de batalha é a que condena às mulheres a ser as portadoras do símbolo cultural dos povos. As mulheres portamos a esência da cultura ou da religiom, seja nos costumes associados a momentos importantes da nossa existência, nascimento, morte, emparelhamento ... ou no nosso jeito de mostrar-nos ao mundo, bem na vestimenta ou no espaço que ocupamos, ou na nossa linguagem corporal. Muitos países que tinham esquecido o uso do velo nas mulheres, recuperam assim este costume para marcar umha diferença cultural e religiosa, em oposiçom aos símbolos ocidentais de permissividade na vestimenta das mulheres. A resistência ao Império, que invade e usurpa os seus territórios e recursos, com cruentas guerras, é expulsado do corpo das mulheres , onde se instala a esência do islamismo cultural e político, e também da identidade diferenciada das mulheres fronte a identidade das mulheres que vivem baixo os desígnios das normas imperiais.

Também, o Império, baixo a desculpa de liberar o território do corpo das mulheres, dos seus velos de opressom, justifica guerras como a de Afganistam, com extensons nom tam directas, mas sim igualmente devastadoras em Paquistam, Bangladês, Iemem, ou o mesmo Iram. Cada medida repressora ou limitadora em ocidente do uso da vestimenta simbólica, nom vai conseguir o efeito libertador que presumivelmente se persegue. Antes bem, cargara-se mais de simbolismo na medida que seja foco de atençom nas sociedades dominantes. Sociedades que, co seu poder político, militar e económico fixérom emerger, fronte a movimentos laicos e democráticos, um forte sentimento identitário que vê nos integrismos religiosos, umha resposta às agressons que padecem constantemente.

As mulheres em ocidente sofremos os nossos bombardeios mediáticos para que nos esforcemos para dar a medida do corsé que estigmatiça as enrugas, as canas, passar dos centímetros e quilos estipulados, ou ficar curta. O êxito das operaçons estéticas, a todas as idades e em todos os sectores sociais, com algumha diferencia marcada sobre todo polo poder aquisitivo, visibiliza esses outros velos, nom impostos por hierarquias religiosas ou políticas, mas sim por um patriarcado que segue a ter a vara de medir o corpo das mulheres, e a maneja, neste caso, ao ritmo que precise o mercado. Operaçons de peitos, de lábios, de nariz, liposuçons, reconstruçom de himens e na última fornada, operaçons de reducçom dos lábios da vulva.

Neste ambiente belicista, a prostituçom é a nai de todas as batalhas no corpo das mulheres. O importante nesta batalha nom é se as mulheres optam voluntariamente ou nom, a vender uns serviços sexuais, poderíamos entóm pôr fim a esta guerra simplesmente perseguindo um delito de rapto e escravitude laboral. Tampouco se trata de se com essa actividade se lucram proxenetas, ou as conexons destas redes co tráfico de armas ou estupefacientes. Sabemos de delitos contra a Humanidade de grandes Coorporaçons Económicas, ou mesmo o que supom a fabricaçom e venda de armamento. A prostituiçom, forçada ou nom, simboliza o domínio, mediante compra, dos corpos das mulheres, o afianzamento dumha sexualidade, que deita no mesmo leito a satisfacçom e livre decissom das partes (suponhendo que estas existam), coas leis do mercado, e um modelo sexual alienado coa opresom. Eis a iniciaçom sexual de miles de moços no nosso tempo. Analfabetos nas relaçons afectivo-sexuais que afiançam estereótipos machistas nos prostíbulos, onde triunfa a sua masculinidade no espelhismo do cerco e conquista facilitado polos euros.

Este ano lembramos o centenário da celebraçom do 8 de Março, como umha data de reivindicaçom dos direitos das mulheres. Volvíamos umha vez mais a vista atrás, para admirar ainda mais as loitas das mulheres sufragistas. A sua batalha foi polo direito ao voto. Por conseguir o que os nossos companheiros revolucionários franceses nos negárom na constituiçom da Primeira Repúbica de 1792. Se pensamos na batalha desatada no corpo das mulheres, temos que respirar profundamente e ser conscientes dos retos que temos por diante para conseguir a soberania sobre os nossos corpos. O feminismo que pretende transformaçons sociais de tanto calado, longe de ter conseguido avanços importantíssimos, semelha que como umha criança, só começou a dar os primeiros passos.

domingo, abril 25, 2010

Contra o fascismo sem fisuras



Acudim hoje à concentraçom convocada por umha dúzia de organizaçons baixo o lema "Pola Xustiza Universal, contra a impunidade do franquismo". Umhas mil pessoas acudírom a esta convocatória, mas eu sabia, e me doíam, as muitas ausências. O meu sindicato, CIG, e outras pessoas situadas ideologicamente à esquerda, nom acudirom, mesmo se desligárom publicamente da mesma. A figura do juíz Baltasar Garzón, prevalecia sobre outros argumentos à hora de fazê-lo. Pesou-lhes mais a imagem que da convocatória faziam os médios de comunicaçom, que repetiam e repetem que foi umha mobilizaçom em apoio ao juiz Garzón, que os comunicados emitidos polas organizaçons convocantes, antes, ou lidos nas distintas concentraçons. Pesou mais essa figura trajeada entrando e saíndo da Audiência Nacional, que os lemas das faixas que encabeçavam as distintas manifestaçons organizadas nesta jornada, dentro e fora do Estado Espanhol. A cegueira política e ética, confundiu-nos. O pulso nom se dá por saber si Garzón é condenado ou nom a avandoar a magistratura, se é culpável de prevaricaçom ou nom. Aqui do que se trata é de se os crimes do fascismo podem ser julgados ou nom.

"VERDADE, XUSTIZA E REPARACIÓN", esse foi o lema da faixa que em Ferrol, encabeçou a concentraçom da Praça de Armas. Umha faixa que as pessoas que trabalham a prol da recuperaçom da Memória Histórica, cederom para que protagonizaram o acto a familiares das vítimas da ditadura franquista em Ferrol. Alí estavam para lembrar-nos o longo caminho andado em soidade durante todos estes anos. Alí estavam para lembrar-nos que ainda hoje é um caminho proibido, silenciado, penalizado... Alí estavam para demostrar-nos que o monstruo se levanta cada vez que escoita os seus passos, as suas vozes, que sente a sua sede de justiça. Por isso, hoje, nom se lhes podia deixar sós. Porque pese ao que representa para muitos e muitas de nós a figura do juiz Garzón, ante o fascismo nom pode haver fissuras.

Quando vim o filme "El laberinto del Fauno", reconhecim as cores de muitas das passagens da minha infáncia. De nena nom entendia muitas cousas, mas havia pessoas como o avó dos meus curmáns, ou o padrinho dumha das minhas irmás, que sabia que tinham algo que os diferenciava dos demais. Andando o tempo da minha vida, enterei-me que á avoa da minha curmá, na casa onde celebráramos muitos anos o seu aniversário, no bairro de Canido, vinheram-lhe buscar ao home para matá-lo e deixaram-na soa com seis filh@s. Ela me mira ainda agora, desde as fotografias que conservo desses anos cumha imensa tristeza. Como se esse fosse o único xeito que se poidera permitir de rebeldia. Alí aparece, entre os rostros sorrintes pola festa, a sua abrumadora e interrogante tristeza. Logo conhecim à família de Amada García, e hai moi poucos anos descubrim que à nena que compartilhava comigo muitas horas de instituto, fuzilaram-lhe o avó, Mendiguchía Real. Escoitei-na reivindicar firme e afectuosamente a sua memória, num acto no peirao de Ferrol na visita do barco Idra. Comprendim que quando representávamos no instituto a obra "O Pequeno Príncipe" de Antoine de Saint-Exupéry, ela já conhecia que significava a palavra Liberdade.

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quinta-feira, abril 08, 2010

Em Ferrol, como em Vigo, manifestaremo-nos em defensa da nossa saúde


O próximo domingo dia 11, às 12 do meio-dia, desde o ambulatório do centro de Ferrol, sairemos em manifestaçom defendendo a sanidade pública, proclamando a saúde como um direito, mostrando a nossa oposiçom a convertê-la num negócio. Todo isto diremos-lho a Feijóo e ao seu governo, responsáveis diretos destas políticas que perseguem tirar negócio dos serviços públicos, criados para garantir ao conjunto da populaçom os seus direitos básicos.

Imos colher o relevo da cidadania que o 25 de Março, encheu coa mesma vontade as ruas da cidade de Vigo. Desde alí venhem informaçons que falam de actuaçons dos actuais responsáveis políticos para apropriar-se de conquistas sociais que garantem a cobertura universal da atençom sanitária, para entregar-lhas aos seus amigos mercaderes das grandes corporacións. A saúde, as pensons, a educaçom, os serviços sociais ... som vistos como grandes ocassons de negócio, umha ingente quantidade de recursos económicos, que hai que retirar do controlo público para ser colocados nas ambiciosas mans dos seus negócios. Só assim se explica, como um hospital projetado para Vigo por valor de 300 milhos de euros, pasará a custar 1000 milhos ao privatizar a sua construçom e gestom. Setecentos milhos que sairám das arcas públicas para engordar benefícios privados e precarizar o trabalho do pessoal sanitário e diminuir a qualidade da assistência.

Por desgraça nom é o único. A ameaça do sistema de copago, a reduçom de pessoal, o pago de medicamentos ... está presente nos projetos da Conselharia de Sanidade, onde a secta Opus Dei ocupa importantes postos de decissom. Esta secta actua coerentemente, pois tem a crença de que as nossas enfermidades e sofrimentos, nom som algo a combater e erradicar, senom que som provas que Deus nos pom para ser merecentes da sua eternidade. Esta secta anima a oferecer os sofrimentos das pessoas enfermas a um deus, que as aceita como demostraçom de amor incondicional, de despreço pola vida na Terra e desejo de estar com ele no Ceu. Toda esta perversom e utilizaçom ao redor do sofrimento humano derivado da falta de saúde, junta-se a umha búsqueda enfermiça do poder político e económico por médios nada transparentes nem democráticos.

O domingo 11 sairemos polas ruas de Ferrol para dizer que a saúde nom é um negócio, é um direito.
Umha grande mobilizaçom cidadá pode fazer de freio a esta loucura privatizadora e concienciar à cidadania na necessidade de afastar dos centros de poder a quem nom esté em disposiçom de garantir coas suas políticas os nossos direitos fundamentais.

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domingo, março 14, 2010

Lei de Estrangeria para a nossa Língua



Já está aí. Chegou o que temíamos. Por decreto, o Galego vai ter a categoria de Língua Estrangeira no ensino. O ódio ao galego está instalado em Sam Caetano. Mas quem inspira todos estes ataques? Por quem estamos governados? Hai uns dias nas tertúlias da manha da Radio galega, escoitavamos dizer ao jornalista Roberto Blanco Valdés que já lhe diziam a Feijoo que o tempo corria contra del, que tinham que governar e levar adiante o decreto, e a quem nom lhe gostasse que roera, que para isso ganharam as eleiçons. E já vemos que lhe fixo caso, mas em que foro, em que estrutura se reúnem estes senhores? Noutra ocasom, no antigo programa "Hai debate", o mesmo no que outro jornalista, Carlos Luis Rodríguez, afirmava que "o galego já nom é a Língua própria da Galiza", Roberto Blanco Valdés também fazia referência a algum tipo de reuniom com frases como "nós já o dixemos" ou "nós já o temos falado", sem que ninguém dos presentes no plató tivesse o reflexo de perguntar-lhe por quem som "nós". Assim, seguimos sem saber quem nos governa. Por um lado sabemos que a seita Opus Dei tem colocados vários numerários e numerárias nas Conselharias. Mas, Roberto nom semelha tal, e Feijoo tampouco, polo que temos que pensar que hai outro governo paralelo noutra parte. Se tivessem o sentido democrático da transparência nolo diriam. O que estou certa, é que esta decissom, de igualar no ensino o Galego a umha língua estrangeira, nom sae dum proceso democrático de debate nas filas do PP.

Manha concentraçons em toda Galiza, e aguarda-nos um ano movido. Que triste história a destes senhores! Som os malos na superproduçom que se fará sobre a história dumha maldiçom que cae sobre esta Terra, e entre intrigas e loitas cainistas, logram desactiva-la dous rapazes fazendo um vinho misterioso que converte a quem o bebe em boa pessoa.

Agora deixemos a fantasia, descansemos esta noite, que manha toca loitar coa realidade, por seguir sendo galegas e galegos.
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sexta-feira, dezembro 25, 2009

Livros



Depois dumha longa travessia polo oceano dos ensaios, onde a leitura era para mim umha ferramenta de trabalho para aplicar a diário, a dor, a tristeza e a saudade destes últimos meses figérom que atracara nas mansas aguas dos relatos, famenta como estava de histórias cálidas, de passar de actora a espectadora da vida. E como quem busca heroína na rua devecendo por acalmar a sua ánsia, entrei numha livraria e pilhei a minha dose sem ver o momento de botar o cobertor na cama e coa luz dumha lámpada nova que merquei para completar a homenagem, lancei-me ávida sobre os livros que seriam o meu passaporte a outros mundos.

A primeira viagem fixem-na da mam de Antonio Yañez. Escolhim o livro porque o autor tem vínculos familiares comigo e a curiosidade algo morvosa de esquadrinhar por dentro a pessoas que conhecemos noutras facetas da vida, tentou-me e nom me arrepinto. Surpreendeu-me a capacidade descritiva dumhas paisagens que estám aqui, acompanhando-me na Terra de Trasancos. As palavras, muitas esquecidas ou mesmo desconhecidas, eram evocadas em mim e se me apresentavam singelas, familiares, como se pertenceram à minha infáncia, e aí estavam para acompanhar na sua "Viaxe a Libunca" ao protagonista. Tenho que dizer que aguardava com espectaçom o passo pola minha parróquia, Caranza. Fiquei algo incómoda pola brevidade do relato e as qualidades outorgadas às mulheres que encontrou ao seu passo. Lembrei quanto deixa quem escreve de autobiográfico nos seus escritos. Ainda nom tivem ocasiom de felicita-lo polo livro e comentar-lhe que o prémio era merecido.

Iniciei a minha segunda viagem da mam de Marilar Aleixandre, entre adolescentes, cumha linguagem ágil e moderna que vai desenvolvendo umha historia de instituto que pode situar-se em qualquer ponto do país. As citas utilizadas pola autora para iniciar cada capítulo podem ser lidas todas seguidas, assim, como enchente, e para contrasta-las coa actualidade do relato e sacar as nossas próprias conclusons. Alegrei-me de ter superado esta etapa da vida tam confusa como é a adolescência e nadar nas tranquilas aguas dos cinquenta. Ainda assim, matinei que, sem ser adolescente, às vezes ter "A cabeza de Medusa" pode ser a explicaçom dalgumha reacçom da gente que se cruza nas nossas vidas.

Agradeço por último que Agustín Fernández Paz, recolhesse no seu livro "O único que queda é o amor" este ácio de relatos curtos. Assim, como se umha dose de xarope se trata-se, fum noite trás noite medicando-me coas suas histórias, que ainda que muitas enleam às pessoas que as protagonizam coas trampas do amor romántico, estám tam bem contadas que o jogo de palavras vai tecendo umha ananás onde adormecer transitando por ruas de névoa, festas de cámara lenta ou livrarias tiradas do filme "Ameli".

Agora estou coa protagonista do relato de Rosa Aneiros, "Sol de Inverno". Gosto muito desta história, mas devo estar sanando da minha enfermidade que nom puxo del como nestas semanas. Porém, anda olhando-me Amalia Valcárcel, cada dia que me deito, desde o andel onde tenho pousado o seu livro " Feminismo en el mundo global", como dizendo, "venha que urge". E no móvel do banho, Pascual Serrano me aguarda para que remate o seu "Desinformación: Como los medios ocultan el mundo". Ainda assim, pensando numha recaída, ando recompilando livros de poesia para meter-me umha dose de quando em vez, como prevençom, no vaia ser que as sombras e o infortúnio queiram aninhar para sempre no meu coraçom.
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quinta-feira, dezembro 24, 2009

Bom Natal



Nestes dias é impossível resistir-se a reflexionar sobre qual é o sentido destas festas. Os porta-vozes católicos, assomam aos médios de comunicaçom directa ou indirectamente para reivindicar a propriedade intelectual destas datas, concretada em belens, panxolinhas e necessidade de fazer o bem, ainda que no fundo nom seja mais que o plano maquiavélico dum deus que fai nascer o seu filho para mata-lo, como único jeito de arrincar-lhe o perdom. Fora disso, dim que só queda consumo desenfreado e mercadotécnia.

O feito de que o discurso dominante no Natal, associasse religiom e harmonia familiar ao longo de várias geraçons, fixo que para muitas pessoas a celebraçom destas festas seja, quando nom umha tortura, um compromisso social difícil de levar.

O substrato que conforma a nossa cultura, fai que os costumes ligados à celebraçom do Yule da tradiçom atlántica e germana, ou a festa em honor ao nascimento de Saturno estendida polo império romano,entre outros, perdurem ao longo dos séculos, e os vejamos reviver com força em forma de árvores enfeitiçados e luzes, muitas luzes, que iluminam os curtos dias do começo do inverno.

Os cámbios estacionais, a relaçom destes coa estrela que nos permite a vida, afectam a pessoas de fé católica, cristiana, ateas ou agnósticas, mesmo a quem nom dedicou muitos segundos da sua vida a reflexionar sobre crenças ou cosmovisons. É o que muitas pessoas se negam a assumir em quanto aos efeitos do cámbio climático. É o que intentam negar apegando-se desesperadamente às suas riquezas e ao seu modelo de vida às pessoas mais poderosas do planeta.

Por isso, porque as noites som mais longas, o frio impom-se e o fim do calendário convida-nos a fazer bons propósitos e a agasalhar a quem mais queremos, ou a quem temos que mostrar agradecimento, as festas de Natal seguem presentes e ainda sem compreender as suas origens a celebraçom vai passando de geraçom a geraçom, com cámbios isso sim, porque ademais, abrange nom só ao mundo familiar, senom à convivência no mundo do trabalho, marca o calendário laboral, a economia...

Por se vos serve de algo, direi-vos que intento que cada ano estas festas sejam ligeiras, que nom me presionem. Que agasalhar, me faga feliz. Que me agasalhem, me adoce o dia. Que a participaçom em reunions familiares ou de trabalho sejam tranquilas. E rir-nos um pouco, ainda que muitas das pessoas que acudimos a elas, vaiamos carregando cada quem cos seus problemas, e cos nossos mortos e mortas, que nestas datas, vesti-mo-los como abrigos para acompanhar-nos ali a onde imos, como si a sua lembrança precisara também de achegar-se às luzes, muitas luzes, para fugir da escuridade destas curtas noites de solstício. Bom Natal, isso sim, menos machista, mais solidário e ecológico.

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quarta-feira, novembro 25, 2009

Avoinha, avoinha… que dentes tam longos tês!

No mitim onde se apresentou a futura Lei de Economia Sostível, Zapatero reiterava mais umha vez, que o PP “nom tem projecto para Espanha”. Quem convenceu à cúpula do PSOE de que esse lema era necessário e útil para criticar à oposiçom conservadora, equivocou-se de pleno. O PP tem um projecto perfeitamente definido, e está articulado co poder financeiro e a hierarquia católica. Na Galiza, o seu projecto é tam claro, que só o medo a tensar demasiado a corda e ter que enfrentar-se a um reagir social como o do Prestige, fai que os motores vaiam a meio gás polo de agora, mas o rumbo do barco deixe umha estela inconfundível. É por isso que todos os esforços deveriam estar orientados a desenmascar esse projecto diante da opiniom pública, e nom a negar a sua existência como um defecto ou carência. Ogalhá esta direita nom tivesse claro o que tem que fazer!

A ONU afirma que o benestar dumha sociedade mide-se polo nivel de igualdade e direitos das mulheres nela. Da mesma forma poderiamos avaliar a acçom política do Partido Popular. É em datas como a do 25 de Novembro, onde mais oportunidades hai para pôr o termómetro social e indicar como está a temperatura da sociedade galega em quanto a direitos e liberdades das mulleres. O diagnóstico é reservado. Existe ademais umha complicaçom engadida que está sendo muito difícil de atalhar. É coma no conto da Carapuchinha, o lobo que a quere comer pom-se as roupas da avoa para engana-la, é dizer, fazer umha cousa coa intençom e a resoluçom de conseguir precisamente o contrário.

Marta González, directora do SGAI desde o 2003 ao 2005, coa Conselheira de Familia, Muller e Xuventude, Manuela López Besteiro, e actual Secretaria Xeral de Igualdade co governo de Feijoo, anunciava diante dos medios de comunicaçom, que a prioridade para rematar coa violência contra as mulheres estava na educaçom, e de feito, sobre este ponto gira a campanha institucional deste ano. Avoinha, avoinha… que olhos tam grandes tês! Som para ver-te melhor minha filha. A loucura privatizadora, o recorte do professorado, o apoio e defensa dos centros que segregam por sexos ao alumnado, as críticas à asignatura de educaçom para a cidadania, a ausência da educaçom afectivo sexual… som as realidades que vam socavando a escola como um serviço público e o rol que deveria jogar na eliminaçom da violência de género.

Na declaraçom institucional deste ano, a Xunta de Galicia incide que neste 25 de Novembro deve-se reflexionar sobre as medidas a tomar para “garantir a atención inmediata e especializada ás vítimas”. Avoinha, avoinha… que nariz tam longo tês! É para cheirar-te melhor minha filha.

O abandono do desenvolvemento da Lei galega contra a violência machista, o futuro incerto dos Centros de Recuperación Integral, o despido das 61 pessoas e feche das oficinas, a maioria no rural, de I+B (Igualdade e Benestar),… convertem a declaraçom institucional em papel molhado pola baba do lobo relambendo-se ante a Carapuchinha.

Avoinha, avoinha… que dentes tam grandes tês! O final deste conto está por escrever.

Poderá Carapuchinha enfrentar o desmantelamento dos serviços públicos que garantem o exerciço de muitos dos seus direitos? Será quem Carapuchinha de conseguir os recursos necessários para deconstruir os mitos e crenças que alimentam a violência machista? Poderá Carapuchinha evitar que muitos desses recursos sejam absorvidos umha e outra vez pola actividade financieira regida pola especulaçom e o enriquecemento sem límites?

Nas últimas oposiçons organizadas polo SERGAS em Silheda, ao redor de 15.000 pessoas deambulavam entre as naves agardando o começo das provas. Um grupo importante de pessoas, na súa maioria gente nova, adicava-se a recolher sinaturas para pedir cadea perpetua para os condenados por assassinatos machistas. Hai pouco apresentava-se umha iniciativa legislativa popular avalada com 30.000 sinaturas para que o governo galego ponha os medios para que as mulheres, nomeadamente as adolescentes, acavem aceptando levar a termo o seu embaraço. Nas misas reparte-se propaganda e desde os medios de comunicaçom ameaça-se coa condenaçom eterna. O activismo de direitas toma as ruas e inxecta ideologia, apresentando ante a sociedade as soluçons mais populistas e feroces, aos problemas sociais. O activismo de esquerdas vai ter que atopar o atalho no bosque para buscar esse final feliz no que nos vai a vida e a esperança.

Mércores 25 de Novembro, 2009
Lupe Ces

Publicado em Tempos Dixital
Revista de Informaçom, opiniom e debate na rede.

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